quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O alfaiatezinho valente


Era uma vez, num país muito distante, um modesto alfaiate que vivia costurando alegremente na frente da janela da sua casinha, quando, num dia como outro qualquer, ouviu, do lado de fora, um homem anunciando geleia para vender.
- Geleia de morango! Deliciosa geleia!, anunciava o vendedor.
O alfaiate ficou com água na boca e depressinha comprou um pote de geleia vermelhinha e cheirosa. Passou uma boa camada de geleia numa fatia de pão, que deixou na mesa para comer depois de terminar o trabalho.
E continuou a costurar, cantarolando. Mas a geleia deu água na boca também de umas moscas, que voaram zumbindo para cima dela. O alfaiate não gostou nada de ver as moscas avançando na sua geleia.
- Mas que atrevimento!, exclamou ele. Vocês já vão ver o que é gostoso!
E, com a própria costura que tinha na mão, ele deu tamanho golpe na mesa, que esparramou a geléia, mas em compensação achatou sete moscas duma vez! O alfaiate ficou tão orgulhoso da sua proeza, que bordou no seu cinto estas palavras: "Sete de um golpe só!" E resolveu sair pelo mundo, para mostrar a toda a gente como ele era valente. Pôs um pedaço de queijo na sacola e pegou a estrada. No caminho, encontrou, um passarinho caído no chão e, com pena dele, colocou-o na sacola, junto com o queijo. Continuou andando, muito alegre. Foi andando ladeira acima, ladeira abaixo, e no alto de um morro deu de repente com um homem enorme.
Mas não se intimidou, e falou com o gigante:
- Estou andando pelo mundo para mostrar como sou valente! Leia só isto!
E mostrou o seu cinto ao homenzarrão.
- "Sete de um golpe só!," leu o homem, e ficou muito impressionado, pensando que o pequeno alfaiate matara sete homens de um golpe só.
Só para tirar a dúvida que tinha, ele pegou uma pedra e esmagou-a nas mãos, com a maior facilidade.
- Isto para mim é canja!, disse o alfaiate.
Tirando o seu queijo da sacola, esmagou-o nas mãos, sem o menor esforço. O gigante, que era míope ou burro, ou ambas as coisas, tornou a ficar impressionado. Mas queria certificar-se mais ainda.
Então, ele apanhou outra pedra e atirou-a ao ar até uma nuvem que passava. O nosso alfaiate mais uma vez não se deu por achado: tirou da sacola o passarinho que encontrara na estrada, e jogou-o para o alto.
O pássaro, feliz por se ver livre, voou para cima, até sumir de vista. Desta vez, o gigante ficou tãoespantado, que achou melhor tratar bem aquele baixinho tão perigoso, e convidou-o a passar a noite na sua casa, convite que este aceitou, pois já estava anoitecendo. Na calada da noite, quando o alfaiate dormia na sua enorme cama, com inveja e receio do seu pequeno hóspede, o gigante resolveu matá-lo, quebrando pelo meio a cama onde seu hóspede dormia, encolhido num canto debaixo das cobertas.
Por estar tão encolhidinho o alfaiate escapou da morte, sem que o malvado percebesse nada. De manhã, o pequeno alfaiate se plantou na frente do gigante, ameaçando-o de mãos na cintura. O grandão ficou tão apavorado que saiu correndo, aos berros de pavor!
Os seus gritos foram ouvidos pelos soldados da guarda real, que ficaram espantados ao ver o terrível gigante fugir gritando do nosso valente alfaiate.
Quando os soldados lhe perguntaram quem era, foi só mostrar-lhe o seu cinto com "sete de um golpe só" bordado, para eles acharem melhor conduzir o herói ao palácio, e apresentá-lo ao rei.
O rei, a rainha e a princesa ficaram cheios de admiração pelo pequeno valentão, que todo gentil e mesuroso, ofereceu seus serviços a Sua Majestade. O rei gostou da idéia e aceitou o oferecimento. A princesa até sorriu para o pequeno alfaiate...
Assim, o baixinho ficou morando numa bonita casinha perto do palácio, onde era convidado permanente.
Um dia o rei chamou e disse:
- Tenho um encargo para lhe dar, já que você é tão forte e valente. Existe neste reino dois gigantes malvados que perturbam e assustam todo o meu povo.
Se você conseguir livrar-nos deles, eu lhe darei como paga metade do reino e, como prêmio, a mão da princesa em casamento. Entusiasmado, o alfaiate aceitou a tarefa e se mandou direto para a floresta, onde não demorou a encontrar os dois terríveis homenzarrões, dormindo a sesta no campo, de costas um para o outro. Enchendo os bolsos de pedras pontudas, o alfaiate subiu na árvore onde os dois estavam encostados. Fazendo boa pontaria, o alfaiate atirou com força duas pedras na cabeça de um dos gigantes.
- Para com isto!, berrou um gigante, e deu um soco na cara do outro.
- Eu não fiz nada!, reclamou o outro, você está sonhando!
Os dois adormeceram de novo, roncando alto.
O alfaiate esperou um pouco e logo atirou duas pedras na cabeça do segundo gigante, que acordou furioso e partiu para cima do primeiro.
Os dois se engalfinharam numa luta mortal. Eles até arrancaram árvores para bater um no outro!
A briga foi tão violenta, que acabaram os dois caindo mortos!
- Missão cumprida!, disse o alfaiate.
E voltou ao palácio, para relatar ao rei o seu novo feito heróico. Na hora de dar o prêmio ao alfaiate, o rei não quis cumprir sua promessa, Encomendou-lhe outro encargo:
- Você foi valente, disse o rei, mas preciso de um serviço seu: quero que você me traga o chifre mágico do unicórnio selvagem, que vive solto na floresta. Antes disso, nada feito.
A princesa ficou desapontada, mas o alfaiate não desanimou.
- Isto será fácil para mim. Matei sete de um golpe só e liquidei dois gigantes malvados. Vou trazer-lhe o tal chifre, Majestade.
E partiu de volta para a floresta.
Ele nem andou muito quando, no meio de um descampado, viu investir contra ele, a galope, o enorme unicórnio, feroz cavalo branco de chifre na testa! Ágil como um gato, o alfaiate pulou para trás de uma árvore, e o unicórnio, na sua fúria cega, sem poder deter a corrida, espetou o seu chifre no tronco da árvore, e lá ficou preso, sem poder levantar a cabeça!
Sem perder tempo, o esperto alfaiate tirou da sacola o machado que levara consigo e, com uma machadada certeira, cortou o chifre do bicho, que vendo-se livre, fugiu a galope.
- Muito bem, disse o alfaiate, satisfeito. Esta missão também está cumprida! Quero só ver se Sua Majestade me dá a recompensa agora!
Como o rei achava que o alfaiate não era nobre o bastante para ser seu genro, inventou outra saída. Disse ao alfaiate para ele ficar no palácio, aguardando os preparativos para o casamento com a princesa, coisa que o alfaiate achou certa. Nesse meio tempo, o rei chamou os seus soldados e lhes deu uma ordem:
- Esta noite, quando o alfaiate estiver dormindo, invadam o seu quarto e amarrem-no bem amarrado, que eu vou cuidar de livrar-me dele duma vez! Mal sabia ele que a princesa estava escondida na escada, escutando tudo. Ela gostava do pequeno alfaiate e queria casar-se com ele. Por isso, resolveu avisá-lo do perigo que corria.
- Você tem de fugir daqui, meu amor!, disse ela. Fuja sem perda de tempo!
- Não vou fugir! Não quero deixá-la, minha prometida!
Eu quero casar com você!
- Eu também quero casar com você!, disse a princesa, mas teremos de esperar por uma hora menos perigosa!
Agora, fuja!
- Não vou fugir!, disse o pequeno alfaiate, que no fundo era corajoso mesmo. Não se preocupe, eu sei o que fazer! Tenho o meu plano.
O nosso alfaiate foi para o seu quarto e fingiu que estava dormindo. Na verdade ele se escondeu atrás da porta e ficou esperando pelos soldados que viriam prendê-lo. Quando os ouviu chegando, deixou que se aproximassem bem, e abrindo a porta de repente, gritou com a sua voz mais forte:
- Eu já matei sete de um golpe só, dei cabo de dois horrendos gigantes e cortei o chifre de um unicórnio selvagem! Não preciso ter medo de sete simples soldadinhos que estão aí fora! Quando os soldados ouviram isto, tremeram de susto e saíram correndo, apavorados.
Dessa vez o rei não teve desculpas para não cumprir o prometido.
Ainda mais porque a princesa teimou que queria casar com o valente alfaiate! Insistiu também que queria aquela metade do reino, como dote!
Assim, o pequeno alfaiate casou-se com a princesa e virou príncipe-consorte. Prêmio merecido para o herói que "matou sete de um golpe só!"
                                                                                                               Irmãos Grimm

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

BONECOS ARTICULADOS DO CONTO DE FADAS A BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES











Retornando atividades

Boa noite caros leitores:
Quero pedir desculpas pelo sumiço mas estive off line por motivos alheios a minha vontade, mas estou de volta e com a corda total. Gostaria que dessem sugestões de posts para eu fazer para vocês.
Um grande abraço e desculpe o sumiço.
Prof° Itacy Huergo

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O gênio da garrafa



Era uma vez um pobre lenhador que trabalhava desde a manhã até a noite fechada. Quando finalmente ele conseguiu juntar um pouco de dinheiro, disse ao seu menino:
- Você é meu filho único e quero aplicar o meu dinheiro, que ganhei com o suor do meu rosto, na sua instrução. Se você aprender alguma coisa que preste, poderá me sustentar na minha velhice, quando os meus membros estiverem endurecidos e eu tiver de ficar sentado em casa.
Então o menino foi para uma boa escola e estudou com afinco, de modo que seus mestres o elogiavam, e ficou algum tempo por ali. Ele terminou um par de cursos, mas ainda não tinha se formado em tudo, quando aconteceu que o pouco dinheiro que o pai economizara se acabou e ele teve de voltar para casa.
- Aí, - disse o pai, tristonho - não posso dar-lhe mais nada e com esta carestia não consigo tampouco ganhar nem um vintém a mais que para o pão de cada dia.
- Querido pai, - respondeu o filho - não se preocupe com isso! Se Deus quiser, tudo terá sido para melhor; eu vou me arranjar.
Quando o pai ia sair para a floresta, para ganhar alguma coisa com a lenha preparada, o filho disse:
- Eu quero ir com você e ajudá-lo.
- Sim, meu filho - disse o pai. - Mas isto lhe será muito difícil; você não está acostumado ao trabalho duro e não vai agüentar. Além disso eu não tenho machado sobrando, e nem dinheiro para poder comprar um novo.
- Vá procurar o vizinho - respondeu o filho. - Ele lhe emprestará o seu machado até que eu possa ganhar o bastante para comprar um para mim.
Então o pai tomou um machado emprestado do vizinho e no dia seguinte, de manhã cedinho, os dois saíram juntos para a floresta. O filho ajudou o pai, com esforço e animado, sem se cansar.
E quando o sol estava a pique sobre eles, o pai falou:
- Vamos descansar e almoçar; depois o trabalho rende o dobro.
O filho pegou o seu pedaço de pão e disse:
- Descanse, pai. Eu não estou fatigado; quero passear um pouco pela floresta e procurar ninhos de passarinho.
- Ó rapazinho tolo! - disse o pai. -- Para que quer ficar correndo de um lado para outro, só para ficar cansado e depois não poder erguer o braço? Fique aqui sentado ao meu lado!
Mas o filho se embrenhou na floresta, comeu o seu pão, muito contente, e espiou por entre os galhos a ver se encontrava algum ninho. Assim ele andou de um lado para outro, até que chegou a um grande carvalho, que devia ter muitos séculos de idade, e cujo tronco cinco homens não poderiam abraçar. Ele parou, olhou para a árvore e disse:
- Aqui muitos pássaros devem ter construído seus ninhos.
Mas aí pareceu-lhe de repente ouvir uma voz. Prestou atenção e ouviu gritar em tom bastante abafado: “Deixe-me sair! Deixe-me sair!”
Olhou em volta e não conseguiu ver nada, mas pareceu-lhe que a voz saía de dentro da terra. Então gritou:
- Onde está você?
A voz respondeu:
- Estou encalhado aqui embaixo, junto das raízes. Deixe-me sair, deixe-me sair!
O estudante começou a cavocar debaixo da árvore e a procurar entre as raízes, até que por fim encontrou, num pequeno desvão, uma garrafa de vidro.
Levantou-a e segurou-a contra a luz, e então viu lá dentro uma coisa que parecia um sapo, pulando para cima e para baixo.
- Deixe-me sair, deixe-me sair! - ouviu de novo. E o garoto, que não desconfiava de nada de mau, tirou a rolha da garrafa. Imediatamente escapou dela um gênio, que começou a crescer, e cresceu tão depressa que em poucos instantes uma figura terrificante, do tamanho da metade da árvore.
- Sabe - urrou a aparição com voz aparovante - qual é o seu prêmio por ter-me libertado?
- Não - respondeu o estudante, sem se assustar.
- Como posso saber disso?
- Então eu lhe direi - gritou o gênio. - Vou quebrar-lhe o pescoço em troca disso.
- Isto você devia ter-me dito antes - respondeu o estudante. - mas minha cabeça tem de permanecer no lugar!
- A recompensa merecida, esta você vai ganhar - gritou o gênio. - Ou pensa que foi por benevolência que me deixaram trancado dentro da garrafa por tanto tempo? Não, foi por castigo. Eu sou o poderoso Mercúrius; quem me soltar terá o pescoço quebrado.
- Mais devagar! - respondeu o estudante. -- As coisas não vão assim tão depressinha! Primeiro eu preciso ter certeza de que você, com este tamanho todo, estava de fato dentro dessa pequena garrafa, e de que você é o gênio verdadeiro; se você puder entrar e caber lá dentro de novo, então vou acreditar e poderá fazer comigo o que quiser.
O gênio falou, cheio de arrogância:
- Isto não é problema! - e começou a se encolher e ficou tão fino e pequeno como estivera antes, de modo que se enfiou, pela mesma abertura no gargalo, para dentro da garrafa.
Mas nem bem ele estava lá dentro, o estudante tampou depressa a garrafa com a mesma rolha, pôs a garrafa de volta no antigo lugar, e o gênio foi logrado.
Agora o estudante queria voltar para junto do pai, mas o gênio gritou, muito lamentoso:
- Deixe-me sair! Ó, deixe-me sair!
- Não, - respondeu o estudante - você iria me enganar como da primeira vez.
- Você está pondo a perder a sua própria felicidade - disse o gênio. - Eu não lhe farei mal, mas vou recompensá-lo ricamente.
O estudante pensou: “Vou tentar; quem sabe ele mantém a palavra; eu não deixarei que ele me faça mal”.
Então tirou a rolha, e o gênio saiu como da primeira vez, espreguiçou-se e ficou do tamanho de um gigante.
- Agora você terá a sua recompensa - disse ele, entregando ao estudante um pequeno pano, que parecia um emplastro, e continuou: - Se você esfregar um ferimento com uma ponta dele, a ferida se fechará; e se esfregar ferro ou aço com a outra ponta, o metal se transformará em prata.
- Preciso experimentar isso - disse o estudante.
Pegou o seu machado, feriu a casca de uma árvore com ele, e esfregou o corte com uma ponta do emplastro; imediatamente o corte se fechou e a casca sarou.
- Muito bem, a coisa funciona - disse ele ao gênio. - Agora podemos nos separar.
O gênio agradeceu-lhe pela sua libertação e o estudante agradeceu ao gênio pelo presente e voltou para junto do pai.
- Por onde você andou passeando? - perguntou o pai. - Por que esqueceu o trabalho? Bem que eu disse logo que você não seria capaz de fazer coisa alguma.
- Não se zangue, pai; eu vou alcança-lo.
- Sim, alcançar, alcançar; - disse o pai, irritado - isto não é tão fácil.
- Pois preste atenção, pai: vou já derrubar esta árvore aqui tão bem que ela
vai tombar com um estrondo.
Então ele pegou o seu machado, esfregou-o com o emplastro e desferiu uma possante machadada na árvore. Mas como o ferro tinha virado prata, a lâmina perdeu todo o corte.
- Ei, pai, veja que machado ruim você me deu. Ele entortou todo com o primeiro golpe. O pai assustou-se e disse:
- Ai, o que foi que você fez! Agora terei de pagar pelo machado e não sei como nem com quê. É esta a vantagem que me traz o seu trabalho...
- Não se zangue, pai! - respondeu o filho. - Eu vou pagar pelo machado.
- Ó seu bobalhão, - exclamou o pai - com o que você vai pagá-lo, se não tem nada além do que lhe dou? Tolices de estudante, é só o que tem na cabeça, mas de cortar lenha você não entende nada.
Dali a pouco, o estudante disse:
- Pai, agora que eu não posso trabalhar mais mesmo, é melhor que encerremos a jornada e vamos para casa.
- Qual o quê! - respondeu o pai. - Você pensa que eu quero cruzar os braços no colo como você? Eu ainda preciso trabalhar, mas você pode se mandar para casa.
- Pai, é a primeira vez que eu estou aqui no meio da floresta, não sei achar o caminho de volta para casa sozinho, venha comigo!
Como a sua cólera já se acalmara, o pai deixou-se persuadir e voltou com o filho para casa. Então lhe disse:
Vá e venda o machado estragado e veja o que pode conseguir por ele. Vou tratar de ganhar a diferença com o meu trabalho, para pagar ao vizinho.
No dia seguinte, o filho pegou o machado e levou-o à cidade, a um ourives. Este fez a prova, colocou o machado na balança e disse:
- Ele vale quatrocentos talers; eu não tenho tanto dinheiro para pagar à vista.
O estudante falou:
- Dê-me o quanto tiver em dinheiro; eu espero pelo restante, em confiança.
O ourives pagou-lhe trezentos talers e ficou devendo cem. Com isso o estudante voltou para casa e disse:
- Pai, eu tenho dinheiro. Vá e pergunte o que o vizinho quer pelo seu machado.
- Isto eu já sei - disse o pai. - Um taler e seis décimos.
- Então dê-lhe dois talers e doze décimos, isto é, o dobro, e é suficiente.
Está vendo, pai, eu tenho dinheiro de sobra!
E com isso ele entregou ao pai cem talers e disse:
- Nunca mais vai lhe faltar nada, pai. Viva agora em conforto.
- Meu Deus! - disse o velho. - Como foi que lhe veio essa riqueza?
Então o filho contou-lhe como tudo acontecera, e como ele, confiante na sorte, fizera tão rico achado. Mas com o dinheiro que sobrou, o rapaz voltou para a escola superior e continuou a estudar. E, como podia curar todos os ferimentos com o seu emplastro, ele tornou-se o médico mais famoso do mundo inteiro.

Irmãos Grimm

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A serpente branca



Há muitos e muitos anos, vivia um rei muito celebrado por sua sabedoria. Nada era oculto para ele. Era como se o conhecimento das coisas mais secretas chegasse até ele pelo ar. Mas tinha um estranho costume. Quando a refeição do meio-dia acabava, a mesa era tirada e não havia mais ninguém presente, um criado de confiança lhe trazia um prato a mais. Esse prato era coberto. Nem mesmo o criado sabia o que havia ali dentro. Nem ele nem mais ninguém, porque o rei só tirava a tampa e comia depois que ficava sozinho. Um dia, depois que isso já acontecia há algum tempo, o criado não aguentou mais de curiosidade na hora de levar o prato embora. Secretamente o carregou para seu quarto, trancou a porta com cuidado e, quando levantou a tampa, viu que dentro havia uma serpente branca. Depois de ver a cobra, não aguentou ficar sem dar uma provadinha. Cortou um pedaço bem pequeno dela e o pôs na boca. Assim que o pedacinho da serpente tocou a língua dele, o criado começou a ouvir sussurros suaves e estranhos do lado de fora da janela. Quando se debruçou para ver o que era, descobriu que as vozes que murmuravam eram de pardais conversando, que contavam uns aos outros tudo o que tinham visto pelos bosques e campos. Provar a serpente tinha lhe dado o poder de entender a linguagem das aves e dos animais. Ora, aconteceu que justamente naquele dia desapareceu o melhor anel da rainha. Como o criado de confiança tinha toda a liberdade para ir onde bem entendesse no palácio, suspeitaram que o tivesse roubado. O rei mandou chamá-lo e brigou com ele, dizendo que, a não ser que ele desse o nome do ladrão até o dia seguinte, seria considerado culpado e decapitado. Não adiantou jurar inocência. O rei mandou-o embora sem uma palavra de consolo. Com medo e se sentindo desgraçado, ele foi até o quintal e ficou pensando, vendo se encontrava um jeito para sair daquela situação. Alguns patos estavam calmamente sentados na beira de um riacho, à vontade, se alisando com o bico e batendo papo. O criado parou e escutou. Cada um dizia aos outros o que tinha acontecido em todos os lugares por onde tinha nadado naquela manhã, e toda a comida gostosa que tinha comido. Mas um deles disse, queixoso: - Estou com um peso no estômago... Estava comendo tão depressa que engoli um anel que estava no chão bem embaixo da janela da rainha...O criado rapidamente agarrou o pato pelo pescoço, levou-o direto para a cozinha e disse ao cozinheiro: - Olha só que pato gordo Se eu fosse você, assava ele. - É mesmo - disse o cozinheiro, pesando o pato com a mão. - Já que ele se esforçou para ganhar tanto peso, é tempo agora de ir para o forno. Cortou o pescoço do pato e depois, quando estava limpando a ave para assar, encontrou o anel da rainha no estômago dela. Com isso, não foi difícil o criado convencer o rei de sua inocência. Querendo reparar a injustiça que tinha feito, o rei lhe perguntou se havia alguma coisa que ele desejasse, e lhe ofereceu o cargo que ele quisesse escolher na corte. O criado recusou todas as honras e disse que só queria um cavalo e um pouco de dinheiro, porque desejava ver o mundo e viajar um bocado. O rei logo lhe deu o que queria, e ele partiu. Um dia, passando por um lago, notou que três peixes estavam presos nuns caniços e estavam ficando sem água. Dizem que os peixes são mudos, mas ele ouviu muito bem como eles gemiam se lamentando, diante da morte horrível que os esperava. Como era um bom sujeito, desceu do cavalo e pôs os três cativos novamente na água. Eles puseram as cabecinhas de fora, se abanando de alegria, e disseram: - Vamos lembrar disso e recompensar você por nos ter salvo. Ele continuou seu caminho e, pouco depois, ouviu uma voz que vinha da areia a seus pés. Prestou atenção e ouviu a queixa do rei das formigas: - Se os humanos conseguissem manter seus animais desajeitados bem longe de nós, seria ótimo! Esse cavalo estúpido com esses cascos imensos e pesados está esmagando meu povo sem piedade... Ouvindo isso, o criado saiu por um caminho lateral, e o rei das formigas gritou: - Vamos lembrar disso e recompensar você... O caminho levava a uma floresta. Lá, ele viu um casal de corvos empurrando os filhotes para fora do ninho: - Fora, seus marmanjões! - gritavam. - Não podemos mais encher as barrigas de vocês. Já estão bem grandinhos para buscarem sua própria comida.- Ainda somos filhotes indefesos - gritavam. - Como é que podemos arranjar. Os pobres filhotes batiam as asas desajeitados e não conseguiam levantar-se do chão. comida se ainda nem sabemos voar? Vocês vão nos fazer morrer de fome! Ouvindo isso, o bom jovem apeou, matou o cavalo com a espada e deu sua carne para alimentar os filhotes de corvo. Eles vieram saltitando, comeram até se fartar, e disseram: - Vamos lembrar disso e recompensar você. Daí para a frente, ele teve que usar as pernas. Depois de muito caminhar, chegou a uma grande cidade. As ruas estavam cheias de barulho e movimento. Um homem a cavalo anunciava que a filha do rei estava procurando marido, mas que quem quisesse pedir a mão dela precisava primeiro cumprir uma tarefa muito difícil e, se falhasse, perderia a vida. Muitos já tinham tentado, mas arriscaram a vida à toa. Quando o jovem viu a filha do rei, ficou tão estonteado com a beleza dela que se esqueceu do perigo, foi até o rei e se apresentou como pretendente. Foi levado diretamente à beira do mar. Lá, diante de seus olhos, jogaram n'água um anel de ouro. Depois, o rei lhe disse que ele precisaria ir buscar o anel lá no fundo. E acrescentou: - Se você sair da água sem ele, será jogado de volta, tantas vezes quantas necessário, até morrer nas ondas. Os cortesãos todos ficaram com pena do jovem e lamentaram sua sorte, tão bonito. Depois, deixaram-no sozinho na praia. Ele ficou um pouco ali parado, pensando no que ia fazer. De repente, viu três peixes nadando em sua direção - justamente os três cujas vidas ele tinha salvo. O do meio tinha uma concha na boca. Depositou-a na praia, junto aos pés do rapaz. Quando ele pegou a concha e abriu, viu que dentro estava o anel de ouro. Todo contente, levou o anel até o rei, esperando receber a recompensa prometida. Mas a princesa era muito prosa e, quando viu que ele era inferior a ela em nascimento, desprezou-o e disse que ele ia precisar cumprir uma segunda tarefa. Desceu até o jardim e espalhou dez sacos cheios de farelo pelo meio da grama. - Você vai ter que recolher tudo isso até amanhã, antes do sol nascer - disse ela -, sem faltar nem um grãozinho. O rapaz sentou no jardim e começou a pensar em um jeito de cumprir a tarefa, mas não lhe ocorria nada. E lá ficou ele, tristíssimo, esperando que o levassem para a morte quando o dia nascesse. Mas quando os primeiros raios do sol chegaram ao jardim, ele viu que os dez sacos estavam de pé, cheios até a borda, sem faltar nem um grãozinho. O rei das formigas tinha vindo durante a noite, com milhares e milhares de formigas, e os bichinhos agradecidos tinham juntado todos os grãos de farelo dentro dos sacos outra vez. A filha do rei veio em pessoa até o jardim e ficou espantadíssima de ver que a tarefa tinha sido cumprida. Mas seu coração prosa ainda se recusava a se render.  Por isso, ela disse: - Ele cumpriu as duas tarefas. Mas não será meu marido enquanto não me trouxer um fruto da árvore da vida. O rapaz nem sabia onde ficava essa árvore da vida. Partiu procurando, resolvido a andar até onde as pernas o levassem, mas sem qualquer esperança de encontrar. Uma noite, depois de procurar por três reinos, ele chegou a uma floresta. Sentou-se debaixo de uma árvore e estava quase adormecendo quando ouviu um barulho nos galhos e uma fruta de ouro caiu em suas mãos. Ao mesmo tempo, três corvos desceram voando da árvore, pousaram em seus joelhos e disseram: - Nós somos os filhotes de corvo que você não deixou morrer de fome. Quando crescemos e ouvimos dizer que você estava procurando a fruta de ouro, voamos por cima do mar até o fim do mundo, onde cresce a árvore da vida, e pegamos a fruta. Muito contente, o rapaz voltou para casa. Deu a fruta de ouro para a princesa e, depois disso, ela não tinha mais desculpa. Dividiram a maçã da vida e a comeram juntos. Aí o coração dela se encheu de amor por ele, e os dois viveram até a velhice numa felicidade perfeita.

Irmãos Grimm

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