quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A Bela e a Fera


ERA UMA VEZ um rico negociante que vivia com seus seis filhos, três rapazes e três moças. Sendo um homem inteligente, não poupou despesas na educação dos filhos, dando-lhes excelente instrução. Suas filhas eram muito bonitas, mas a caçula principalmente despertava grande admiração. Quando era pequena, só a chamavam “a bela menina”. Assim foi que o nome “Bela” pegou – o que deixava suas irmãs muito enciumadas.
Essa caçula, além de mais bela que as irmãs, era também melhor que elas. As duas mais velhas se orgulhavam muito de ser ricas. Davam-se ares de grandes damas e não queriam receber visitas das outras filhas de comerciantes. Só gostavam da companhia de gente da nobreza. Todos os dias iam ao baile, ao teatro, saíam a passeio e zombavam da caçula, que ocupava a maior parte de seu tempo lendo bons livros.
Como se sabia que as moças eram muito ricas, vários negociantes ricos as pediam em casamento. Mas as duas mais velhas respondiam que nunca se casariam, a menos que encontrassem um duque, ou, pelo menos, um conde. Bela (pois já lhes disse que esse era o nome da mais nova), Bela, como eu ia dizendo, agradecia com muita polidez aos que queriam desposá-la, mas dizia que era muito jovem e que desejava fazer companhia ao pai por alguns anos. De repente, o negociante perdeu sua fortuna. Só lhe restou uma pequena casa no campo, bem longe da cidade. Chorando, disse às filhas que teriam de ir morar lá e trabalhar como camponeses para sobreviver. As duas filhas mais velhas responderam que não queriam deixar a cidade, e que tinham vários admiradores que ficariam felicíssimos em se casar com elas, mesmo que não tivessem mais fortuna. Mas essas gentis senhoritas estavam enganadas. Seus admiradores não queriam mais nem olhar para elas agora que estavam pobres. Como ninguém gostava delas, por causa de seu orgulho, dizia-se: “Que banquem as grandes damas agora, pastoreando carneiros.” Mas, ao mesmo tempo, todo mundo repetia: “Quanto a Bela, temos muita pena de sua desgraça. É uma moça tão boa! Fala com os pobres com tanta bondade, é tão meiga, tão virtuosa…” Houve até vários fidalgos que quiseram se casar com Bela, embora ela não tivesse um tostão. Mas ela lhes explicou que não tinha coragem de abandonar o pai na miséria, que iria com ele para o campo e o ajudaria com o trabalho. No começo, a pobre Bela ficara muito aflita por perder sua fortuna, mas refletira: “Por mais alto que eu chorasse, isso não me devolveria a minha fortuna. Tenho de tratar de ser feliz sem ela.”
Já instalados em sua casa no campo, o negociante e as três filhas se ocuparam lavrando a terra. Bela levantava às quatro horas da madrugada e se apressava em limpar a casa e preparar o café da manhã para a família. No começo foi muito difícil, pois não estava acostumada a trabalhar como uma criada. Passados dois meses, porém, ficou mais forte e o trabalho árduo lhe deu uma saúde perfeita. Quando terminava seus afazeres, lia, tocava cravo ou cantava enquanto fiava. Suas duas irmãs, por outro lado, morriam de tédio. Levantavam-se às dez da manhã, passeavam o dia inteiro e se distraíam lamentando a perda de seus belos vestidos e das antigas companhias. “Aí está nossa caçula”, diziam entre si. “Tem uma alma tão grosseira e é tão idiota que está contente com sua triste situação.” O bom negociante não pensava como as filhas. Sabia que Bela era uma moça especial, ao contrário das irmãs. Admirava a virtude dessa jovem, e sobretudo sua paciência, pois as irmãs, não contentes em deixá-la fazer todo o trabalho doméstico, insultavam-na a todo instante. Fazia um ano que a família vivia na solidão quando o negociante recebeu uma carta informando que um navio, que trazia mercadorias suas, acabava de atracar com segurança. Essa notícia virou a cabeça das duas irmãs mais velhas, que acharam que finalmente iriam deixar o campo, onde tanto se entediavam. Alcançaram o pai na porta e suplicaram que lhes trouxesse vestidos, golas de pele, perucas e toda sorte de bagatela. Bela não lhe pediu nada, pois pensou consigo mesma que todo o dinheiro ganho com as mercadorias não bastaria para comprar o que as irmãs desejavam. “Não quer que eu traga nada para você?” perguntou o pai. “Já que tem a bondade de pensar em mim, poderia me trazer uma rosa, pois essa flor não cresce aqui.” Não é que a Bela fizesse muita questão de uma rosa, mas não queria condenar o comportamento das irmãs. Estas, aliás, teriam dito que era para ser diferente que ela não pedia nada. O bom negociante partiu. Chegando ao porto, porém, descobriu que havia problemas legais com suas mercadorias e, depois de muita contrariedade, voltou tão pobre como era antes. Só lhe faltavam cinquenta quilômetros para chegar em casa, e ele já sentia o prazer de rever as filhas. Antes de chegar, porém, tinha de atravessar um grande bosque, e ali se perdeu. Nevava horrivelmente, e o vento era tão forte que o derrubou duas vezes do cavalo. Ao cair da noite, pensou que morreria de fome, ou de frio, ou que seria comido pelos lobos que ouvia uivar à sua volta. De repente, no fim de um comprido túnel de árvores, viu uma luz forte, mas que parecia muito distante. Seguiu naquela direção e viu que a luz saía de um grande palácio, todo iluminado. O negociante agradeceu a Deus pelo socorro que lhe enviava e tratou de chegar logo àquele castelo. Ficou surpreso ao não ver ninguém nos pátios. Seu cavalo, que o seguia, vendo um grande estábulo vazio, entrou. Encontrando lá feno e aveia, o pobre animal, que estava morto de fome, pôs-se a comer com um apetite voraz. O negociante o amarrou no estábulo e rumou para o castelo. Não havia ninguém à vista, mas, tendo entrado num amplo salão, encontrou um bom fogo e uma mesa repleta de comida, com prato e talheres para uma só pessoa. Como a chuva e a neve o haviam encharcado até os ossos, aproximou-se do fogo para se aquecer, pensando consigo: “O dono da casa ou seus criados me perdoarão a liberdade que tomei. E certamente logo vão aparecer.” Esperou um longo tempo mas, como soavam onze horas e ninguém aparecia, não resistiu à fome: pegou um frango e o comeu em duas mordidas, tremendo. Tomou também algumas taças de vinho e, mais animado, saiu da sala e atravessou várias salas grandes e magnificamente mobiliadas. Finalmente, encontrou um quarto onde havia uma boa cama. Como passava da meia-noite e estava exausto, resolveu fechar a porta e se deitar. Quando se levantou, no dia seguinte, já eram dez horas da manhã. Para sua surpresa, encontrou uma roupa muito limpa no lugar da sua, que estava toda estragada. “Com certeza”, disse consigo, “este palácio pertence a uma boa fada que teve piedade da minha situação.” Olhou pela janela e não viu mais neve, mas alamedas de flores que encantavam a vista. Voltou para o salão onde ceara na véspera e percebeu uma mesinha em que havia chocolate quente. “Muito obrigado, senhora Fada”, disse em voz alta, “por ter tido a bondade de pensar em meu café da manhã.” Depois de tomar seu chocolate, o bravo negociante foi à procura de seu cavalo. Ao passar por um canteiro de rosas, lembrou-se do pedido de Bela e colheu um ramo com várias flores. No mesmo instante, um grande barulho ecoou, e ele viu aproximar-se uma fera tão horrorosa que quase desmaiou. “O senhor é bem ingrato”, disse-lhe a Fera com uma voz terrível. “Salvei sua vida, recebo-o no meu castelo e, para minha decepção, o senhor rouba minhas rosas, que amo mais que tudo no mundo. Só a morte pode reparar essa falta. Dou-lhe quinze minutos para pedir perdão a Deus.” O negociante caiu de joelhos e suplicou à Fera: “Perdoai-me, Vossa Alteza, não tinha intenção de vos ofender colhendo uma rosa para atender o pedido de uma de minhas filhas.” “Não me chamo Vossa Alteza”, respondeu o monstro, “mas Fera. E, de minha parte, não gosto de elogios, gosto que se diga o que se pensa. Por isso, não tente me comover com bajulação. Mas disse que tem filhas. Disponho-me a perdoá-lo com a condição de que uma de suas filhas se ofereça voluntariamente para morrer no seu lugar. Não me venha com lero-lero. Parte, e se suas filhas se recusarem a morrer por você, jure que você estará de volta dentro de três dias.” O bom homem não tinha nenhuma intenção de sacrificar uma das filhas àquele monstro malvado, mas pensou: “Pelo menos terei o prazer de abraçar minhas filhas mais uma vez.” Assim, jurou que voltaria, e a Fera lhe disse que podia partir quando quisesse. “Mas não quero que você vá de mãos vazias. Volta ao quarto onde dormiu e lá encontrará um grande cofre vazio. Pode pôr dentro dele tudo que lhe agrade, mandarei levá-lo à sua casa.” Então a Fera se afastou, e o bom homem pensou: “Se tenho de morrer, terei o consolo de deixar alguma coisa para minhas pobres filhas.” Voltou ao quarto onde dormira e, encontrando ali grande quantidade de moedas de ouro, encheu com elas o cofre de que a Fera havia falado. Fechou-o, foi buscar seu cavalo no estábulo e deixou o palácio com uma tristeza tão grande quanto a alegria que sentira ao nele entrar. Seu cavalo escolheu instintivamente uma das trilhas da floresta e, em poucas horas, o negociante chegou à sua casinha. Suas filhas se reuniram em torno dele, mas, em vez de se alegrar com seus carinhos, o negociante pôs-se a chorar ao vê-las. Tinha na mão o ramo de rosas que trazia para Bela. Ao entregá-lo, disse: “Bela, guarde estas rosas. Elas custaram muito caro a seu pobre pai.” E imediatamente contou à família a funesta aventura que vivera. Ao ouvir seu relato, as duas filhas mais velhas gritaram alto e lançaram insultos a Bela, que não chorava. “Vejam o resultado do orgulho desta criatura”, disseram. “Por que não pediu artigos de toalete como nós? Mas não, a senhorita queria ser diferente. Vai causar a morte de nosso pai, e não derrama uma lágrima.” “Seria totalmente inútil”, insistiu Bela. “Por que eu choraria a morte de meu pai? Ele não vai morrer. Como o monstro está disposto a aceitar uma de suas filhas, vou me entregar à sua fúria. Estou muito feliz, porque, morrendo, terei a alegria de salvar meu pai e lhe provar minha ternura.” “Não, minha irmã”, responderam-lhe seus três irmãos. “Você não vai morrer. Vamos encontrar esse monstro e perecer em suas garras se não conseguirmos matá-lo.” “Não contem com isso, meus filhos”, disse-lhes o negociante. “A força da Fera é tamanha que não alimento nenhuma esperança de matá-lo. Fico comovido com o bom coração de Bela, mas não quero expô-la à morte. Estou velho e não me resta muito tempo de vida. Perderei apenas alguns anos, o que só lamento por vossa causa, meus queridos filhos.” “Não irá a esse palácio sem mim”, disse-lhe Bela. Não pode me impedir de segui-lo. Embora seja jovem, não sou muito apegada à vida, e prefiro ser devorada por esse monstro a morrer da dor que sentiria com sua perda.” Foi inútil argumentar: Bela estava absolutamente decidida a partir para o palácio. A ideia deixou suas irmãs encantadas, pois as virtudes da caçula lhes inspiravam muito ciúme. O negociante estava tão entregue à dor de perder a filha, que não se lembrou do cofre que enchera de ouro. Porém, assim que se fechou em seu quarto para se deitar, ficou muito espantado por encontrá-lo junto à sua cama. Resolveu não contar aos filhos que ficara tão rico, porque as moças teriam desejado voltar para a cidade e ele estava decidido a morrer no campo. Mas confiou o segredo a Bela, que por sua vez lhe contou que, durante a ausência dele, alguns fidalgos lá haviam estado. Dois deles amavam suas irmãs. Ela pediu ao pai que as casasse. E era tão boa que ainda gostava delas, e as perdoava de todo coração pelo mal que lhe haviam feito. As duas moças malvadas esfregaram cebola nos olhos para chorar quando Bela partiu com o pai. Mas os irmãos choraram de verdade, assim como o negociante. Só Bela não chorou, pois não queria aumentar a dor dos outros. O cavalo tomou o caminho do palácio e, ao anoitecer, puderam vê-lo, iluminado como da primeira vez. Deixando o cavalo sozinho no estábulo, o negociante entrou com a filha no grande salão, onde encontraram uma mesa magnificamente servida, com talheres para dois. O negociante não tinha estômago para comer, mas Bela, esforçando-se para parecer tranquila, sentou-se à mesa e o serviu. E pensava consigo: “A Fera quer me engordar antes de me comer, visto que me serve esta
bela refeição.” Assim que acabaram de cear, ouviram um grande barulho e o negociante disse adeus à filha, chorando, porque sabia que a Fera se aproximava. Bela não pôde conter um arrepio ao ver aquela figura horrível. Mas controlou-se o melhor que pôde, e quando o monstro lhe perguntou se viera por vontade própria respondeu, tremendo, que sim. “Você é muito bondosa”, disse a Fera, “e sou-lhe muito agradecido. Quanto ao senhor, meu bom homem, parta pela manhã, e nunca mais ouse voltar aqui. Adeus, Bela.” “Adeus, Fera”, ela respondeu, e o monstro se retirou no mesmo instante.“Ah, minha filha!” disse o negociante abraçando Bela, “Estou quase morto de pânico. Acredite no seu pai, deixe eu ficar aqui.” “Não, meu pai”, Bela respondeu com firmeza. “O senhor partirá amanhã cedo, e me entregará à misericórdia do céu. Talvez lá no alto tenham piedade de mim.” Os dois se recolheram achando que não dormiriam a noite inteira, porém, mal haviam se deitado, seus olhos se fecharam. Durante seu sono, Bela viu uma dama que lhe disse: “Estou contente com seu bom coração, Bela. Sua boa ação, oferecendo a própria vida para salvar a do seu pai, não ficará sem recompensa.” Ao acordar, Bela contou o sonho ao pai e, embora isso o consolasse um pouco, não o impediu de soluçar alto quando teve de se separar de sua querida filha. Depois que o pai partiu, Bela sentou-se no grande salão e começou a chorar também. Mas, como era muito corajosa, pôs-se nas mãos de Deus e decidiu não se atormentar durante o pouco tempo de vida que lhe restava, pois acreditava firmemente que a Fera iria devorá-la ao cair da noite. Enquanto esperava, resolveu visitar o castelo. Não pôde deixar de admirar sua beleza. Qual não foi sua surpresa, porém, quando encontrou uma porta sobre a qual estava escrito: Aposentos de Bela! Abriu-a num impulso e ficou fascinada com a magnificência que ali reinava. O que mais chamou sua atenção, porém, foi um grande armário de livros, um cravo e vários livros de música. “Não querem que eu me aborreça”, murmurou. Mas em seguida pensou: “Se eu tivesse só um dia para passar aqui, não estariam me cobrindo com tantos presentes.” Esse pensamento a animou. Abriu o armário e viu um livro em que estava escrito em letras douradas: Vossos desejos são ordens. Aqui, sois a rainha e a senhora. “Pobre de mim!” pensou, com um suspiro. “Tudo que desejo é rever meu pai e saber o que está fazendo agora.” Foi só um pensamento, mas qual não foi sua surpresa quando, ao olhar para um grande espelho, viu nele a sua casa, onde seu pai chegava com um semblante carregado de tristeza. Suas irmãs iam ao encontro dele e, apesar das caretas que faziam para parecer tristes, a alegria que sentiam pela perda da irmã transparecia nos seus rostos. Num instante tudo aquilo desapareceu, e Bela admitiu que a Fera era bem indulgente, e que ela não devia temê-la. Ao meio-dia encontrou a mesa posta e, enquanto almoçava, ouviu um excelente concerto, embora não visse ninguém. À noite, ao se sentar à mesa, ouviu o barulho que a Fera fazia e não pôde conter um calafrio. “Bela”, disse o monstro, “incomodo se a vejo cear?” “É o senhor quem reina neste castelo”, disse Bela, tremendo. “Não”, respondeu a Fera, “não há aqui outra senhora além de Bela. Caso a esteja aborrecendo, uma palavra sua e vou-me embora. Diga, a senhorita me acha muito feio?” “Acho sim”, disse a Bela. “Não sei mentir. Mas acredito que é muito bom.” “Tem razão”, disse o monstro, “mas, além de feio, não tenho inteligência; afinal não passo de um animal.” “Não pode ser um animal se acha que não tem inteligência”, replicou Bela. “Um tolo nunca sabe que é tolo.” “Então coma, Bela”, disse o monstro, “e trate de não se aborrecer na sua casa. Pois tudo isto é seu, e eu ficaria desolado se você não estivesse contente.” “O senhor é mesmo bondoso”, disse Bela. “Confesso que seu coração me agrada muito. Quando penso nele, o senhor não me parece tão feio.” “Ah, senhorita, é verdade”, respondeu a Fera. “Tenho um bom coração, mas sou um monstro.” “Muitos homens são mais monstruosos”, disse Bela, “e gosto mais do senhor com essa aparência que daqueles que, por trás de uma aparência de homens, escondem um coração falso, corrompido, ingrato.” “Se eu fosse inteligente”, respondeu a Fera, “agradeceria com um grande elogio. Mas sou um idiota, e tudo que posso dizer é que fico muito grato.” Bela ceou com bom apetite. Quase não sentia mais medo do monstro. Mas esteve a ponto de morrer de susto quando a Fera lhe perguntou: “Bela, aceita ser minha mulher?” Ficou algum tempo sem responder. Tinha medo de provocar a cólera do monstro recusando-o. Mesmo assim, disse, tremendo: “Não, Fera.” Naquele instante o pobre monstro deu um suspiro profundo, e soltou um assobio tão medonho que ressoou pelo palácio todo. Mas Bela logo se tranquilizou, porque a Fera lhe disse tristemente: “Adeus, Bela”, e saiu do salão, virando-se de vez em quando para olhar para ela mais uma vez. Ao se ver sozinha, Bela sentiu grande compaixão por aquela pobre Fera. “Ai”, pensou, “é mesmo pena que seja tão feio. É tão bom!” Bela passou três meses naquele palácio, em total tranquilidade. Todas as noites, a Fera lhe fazia uma visita, a distraía durante a ceia com uma boa conversa, mas nunca com o que, em sociedade, chamamos de espirituosidade. Sua presença frequente fizera Bela se acostumar com sua feiura e, longe de temer o momento da sua visita, consultava muitas vezes seu relógio para ver se já estava perto de nove horas, pois era a essa hora em que a Fera aparecia. Só uma coisa afligia Bela: é que o monstro, antes de ir se deitar, sempre lhe perguntava se ela queria se casar com ele e parecia profundamente ferido quando a resposta era não. Um dia, Bela falou: “O senhor está me fazendo sofrer, Fera. Gostaria de poder desposá-lo, mas sou muito sincera para iludi-lo, dizendo que isso um dia vai acontecer. Serei sempre sua amiga, procure se contentar com isso.” “Não me resta outra coisa”, respondeu a Fera. “Não me engano a meu respeito, sei que sou horrível. Mas a amo muito e, seja como for, fico muito feliz por aceitar permanecer aqui. Prometa que não me deixará.” Bela ruborizou a essas palavras. Soubera por seu espelho que o pai estava doente de tristeza por tê-la perdido, e desejava revê-lo. “Posso prometer nunca deixá-lo para sempre”, disse Bela, “mas tenho tanta vontade de rever meu pai que morreria de dor se me recusasse esse prazer.” “Preferiria morrer a fazê-la sofrer”, respondeu a Fera. “Vou enviá-la à casa de seu pai. Mas se a senhorita não voltar, sua pobre Fera morrerá de dor.” “Não”, disse Bela, chorando. “Meu amor é muito grande para causar sua morte. Prometo voltar em oito dias. O senhor me permitiu saber que minhas irmãs estão casadas e meus irmãos partiram para o exército. Meu pai está sozinho, permita que eu passe uma semana com ele.” “Estará lá amanhã cedo”, disse a Fera. “Mas lembre-se da sua promessa. Quando quiser voltar, só precisa pôr seu anel sobre uma mesa ao se deitar.” Ao dizer estas palavras, a Fera suspirou como era do seu costume e Bela foi se deitar triste por tê-lo feito sofrer. De manhã, ao despertar, estava na casa do pai. Ao tocar uma sineta que estava ao lado da cama, viu entrar uma criada, que deu um grande grito ao vê-la. A esse grito o negociante acorreu, quase morrendo de alegria ao rever sua querida filha. Ficaram abraçados por um bom quarto de hora. Bela, após o alvoroço do reencontro, lembrou que não teria nada para vestir, mas a criada lhe contou que acabara de encontrar num quarto vizinho um grande baú, cheio de vestidos dourados enfeitados com diamantes. Em pensamento, Bela agradeceu à Fera por suas atenções. Pegou o menos rico daqueles vestidos e disse à criada que trancasse os outros, pois ia dá-los de presente às irmãs. Mal pronunciara essas palavras, porém, o baú desapareceu. Seu pai então lhe disse que a Fera queria que ela guardasse tudo aquilo para si e, imediatamente, os vestidos e o baú voltaram para o mesmo lugar. Enquanto Bela se vestia, foram avisar suas irmãs, que vieram com seus maridos. Todas as duas estavam muito infelizes. A mais velha se casara com um fidalgo, belo como o amor. Mas ele estava tão apaixonado por sua própria imagem que não pensava em outra coisa da manhã à noite, e desprezava a beleza da esposa. A segunda se casara com um homem muito inteligente. Mas ele só usava sua inteligência para espicaçar todo mundo, a começar por sua mulher. As irmãs de Bela quase morreram de desgosto ao vê-la vestida como uma princesa e mais bela que o dia. Em vão Bela tentou confortá-las, nada podia diminuir sua inveja, que aliás aumentou muito quando Bela lhes contou como era feliz. As duas invejosas desceram ao jardim para chorar à vontade, e pensaram: “Por que essa criatura insignificante é mais feliz que nós? Não somos mais encantadoras que ela?” “Minha irmã”, disse a mais velha, “tive uma ideia. Vamos segurar Bela aqui por mais de oito dias. Aquela Fera idiota ficará furiosa por ela lhe ter faltado com a palavra e talvez a devore.” “Está certo, minha irmã”, respondeu a outra. “Para isso, vamos precisar lhe fazer mil agrados.” Tendo tomado essa decisão elas entraram em casa e foram tão afetuosas com Bela que esta chorou de alegria. Quando os oito dias tinham se passado, as duas irmãs quase arrancaram os cabelos, fingindo tal desespero com a sua partida que Bela prometeu ficar mais oito dias. Ao mesmo tempo, ela se recriminava pela dor que causaria à sua pobre Fera, a quem amava de todo o coração, e de quem sentia muita falta. Na décima noite que passou na casa do pai, Bela sonhou que estava no jardim do palácio e que via a Fera, deitada na grama e quase morrendo, censurando-a por sua ingratidão. Bela acordou num sobressalto e caiu em prantos. “Não é muita maldade minha”, disse ela consigo mesma, “fazer sofrer a Fera que é só bondade para mim? É culpa dele se é tão feio, se não é muito inteligente? Ele é bom, e isso vale mais que todo o resto. Por que não quis me casar com ele? Seria mais feliz ao lado dele que minhas irmãs com seus maridos. Não é nem a beleza, nem a inteligência de um marido que fazem uma mulher feliz. É o caráter, a virtude, a bondade. A Fera tem todas essas boas qualidades. Não o amo; mas tenho por ele estima, amizade e gratidão. Vamos, é errado fazê-lo infeliz. Eu me condenaria o resto da vida.” A essas palavras, Bela se levantou, pôs seu anel sobre a mesa e voltou para a cama. Adormeceu assim que se deitou e, ao acordar de manhã, viu com alegria que estava no palácio da Fera. Vestiu-se magnificamente para lhe agradar e morreu de tédio o dia inteiro esperando dar nove horas da noite. Mas quando o relógio por fim soou nove horas, a Fera não apareceu. Bela temeu então ter causado a sua morte. Correu por todo o palácio, gritando alto. Estava desesperada. Após ter procurado em toda parte, lembrou-se do seu sonho e correu para o jardim, na direção do canal, onde o tinha visto. Encontrou a pobre Fera caída no chão, inconsciente, e pensou que tinha morrido. Atirou-se sobre seu corpo, sem sentir horror por sua aparência, e ao perceber que o coração ainda batia pegou água no canal e jogou-a sobre seu rosto. A Fera abriu os olhos e disse a Bela: “Você esqueceu sua promessa. A dor de perdê-la me fez decidir morrer de fome. Mas morro contente, pois tive o prazer de revê-la mais uma vez.” “Não, meu caro, não vai morrer”, respondeu Bela. “Vai viver para se tornar meu esposo. Desde já lhe concedo minha mão, e juro que pertencerei somente a você. Ai de mim, acreditava que era só amizade, mas a dor que sinto demonstra que não poderia viver sem a sua presença.” Mal pronunciara essas palavras, Bela viu o castelo resplandecer de luz, os fogos de artifício, a música, tudo anunciava uma festa, mas aqueles esplendores não prenderam sua atenção. Voltou-se para sua Fera, cujo estado a inquietava. Que surpresa teve! A Fera desaparecera e tudo que a Bela viu a seus pés foi um príncipe mais belo que o amor, que a agradeceu por ter desfeito seu encantamento. Embora o príncipe merecesse toda a sua atenção, Bela não pôde deixar de perguntar onde estava a Fera. “Está a seus pés”, disse-lhe o príncipe. “Uma fada má condenou-me a viver sob essa forma até que uma bela moça consentisse em me desposar. Proibiu-me também de deixar minha inteligência aparecer. Você foi a única pessoa no mundo boa o bastante para se deixar tocar pela bondade do meu caráter. Nem lhe oferecendo minha coroa posso saldar toda a dívida de gratidão que tenho com você.” Bela, feliz com a surpresa, deu a mão a esse belo príncipe para se erguer. Foram juntos para o castelo, e ela quase morreu de alegria ao encontrar no salão o pai e toda a família, que a bela dama do sonho havia transportado para lá. “Bela”, disse-lhe essa dama, que era uma fada, “venha receber a recompensa por sua boa escolha: você preferiu a virtude à beleza e à inteligência, portanto merece encontrar todas essas qualidades reunidas numa mesma pessoa. Vai se tornar uma grande rainha. Espero que o trono não destrua suas virtudes. Quanto às senhoritas”, disse a fada para as duas irmãs da Bela, “conheço seus corações, e toda a malícia que encerram. Vou transformá-las em duas estátuas. Mas conservarão toda a sua razão sob a pedra que as recobrirá. Permanecerão na porta do palácio de sua irmã e não lhes imponho outro castigo a não ser testemunhar a felicidade dela. Só poderão retornar a seu estado anterior no momento em que reconhecerem seus erros, mas acho que serão estátuas para sempre. Podemos nos corrigir do orgulho, da cólera, da gula e da preguiça. Mas a conversão de um coração mau e invejoso é uma espécie de milagre." No mesmo instante a fada moveu sua varinha, que transportou todos os que ali estavam para o reino do príncipe. Seus súditos o receberam com alegria, e ele se casou com Bela, que viveu com ele por muitos e muitos anos, numa felicidade perfeita, pois era fundada na virtude.

JEANNE-MARIE LEPRINCE DE BEAUMONT - Madame de Beaumont

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

As lebres, as raposas e as águias


Uma vez as lebres se meteram numa guerra longa e feroz com as águias e viram que não iam conseguir vencer suas inimigas se não conseguissem ajuda. Diante disso, foram conversar com as raposas para ver se queriam fazer uma aliança com elas contra as águias. As lebres ficaram felizes quando as raposas responderam educadamente que gostariam muito de ajudá-las em tudo que fosse possível. Só que a alegria das lebres durou pouco, pois as raposas continuaram dizendo, com igual sinceridade, que também eram muito amigas das águias.


Moral: Só é possível uma sociedade quando os dois parceiros estão unidos em torno de uma mesma causa.


                                                                                               Esopo

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O Duende da Mercearia

Era uma vez um estudante, um autêntico estudante; vivia num sótão e não possuía nada. E era uma vez um merceeiro, um autêntico merceeiro; vivia no rés-do-chão e era dono do prédio inteiro. E foi por isso que o duende decidiu morar com o merceeiro. Além disso, todos os Natais recebia uma tigela de papa de aveia com um grande pedaço de manteiga lá dentro. O merceeiro tinha posses para isso, de maneira que o duende continuava a morar na loja. Há por aqui algures uma moral, se a procurarem bem.
Uma noite, o estudante entrou na mercearia pela porta das traseiras para comprar um pedaço de queijo e velas. Fez as compras e depois pagou, e o merceeiro e a mulher acenaram-lhe com a cabeça e disseram «boa noite». A mulher, contudo, era bem capaz de fazer mais do que acenar; era muito faladora — falava, falava, falava. Tinha o que se chama o hábito de falar pelos cotovelos, disso não havia dúvida. O estudante também fez um aceno — e foi nessa altura que viu qualquer coisa escrita no papel que embrulhava o queijo e parou para ler. Era uma página de um velho livro de poemas, uma página que nunca devia ter sido arrancada.
— Tenho aqui mais desse livro, se quiser — disse o merceeiro. — Dei a uma velhota alguns grãos de café por ele. Pode ficar com o resto por seis dinheiros, se estiver interessado.
— Obrigado — respondeu o estudante. — Dê-mo em vez do queijo. Passo bem só com pão. É uma pena usar um livro destes para papel de embrulho! O senhor é muito boa pessoa e bastante prático, mas percebe tanto de poesia como aquela banheira ali ao canto.
Ora isto foi uma frase indelicada, especialmente aquela parte respeitante à banheira, mas o merceeiro riu-se, e o estudante também; afinal de contas, fora apenas uma brincadeira. Mas o duende ficou aborrecido por alguém se atrever a falar assim com o merceeiro — ainda por cima o senhorio, uma pessoa importante que era dono do prédio todo e vendia manteiga da melhor qualidade.
Nessa noite, quando a loja estava fechada e toda a gente, excepto o estudante, estava na cama, o duende entrou no quarto do merceeiro em bicos de pés e roubou à mulher do merceeiro o dom de falar pelos cotovelos, porque ela não precisava dele enquanto dormia. A seguir, fez com que cada objecto em que tocava ficasse capaz de exprimir as suas opiniões tão bem como a mulher do merceeiro. Mas só podia falar um de cada vez, o que era uma bênção, se não desatavam todos a falar ao mesmo tempo.
Primeiro, o duende deu o dom de falar pelos cotovelos à banheira onde se guardavam os jornais velhos.
— É mesmo verdade que não percebes nada de poesia? — perguntou.
— Claro que percebo! — respondeu a banheira. — A poesia é uma coisa que vem no fim das folhas dos jornais e que as pessoas costumam recortar. Acho até que tenho mais poesia dentro de mim do que o estudante; e, apesar disso, sou apenas uma humilde banheira, comparada com o merceeiro.
Depois, o duende deu o dom de falar pelos cotovelos ao moinho de café. Meu Deus, que chinfrineira! Depois, deu-o ao pote de manteiga, e depois à caixa registadora. Todos eram da mesma opinião da banheira e as opiniões da maioria têm de ser respeitadas.
— Agora posso pôr o estudante no seu lugar! — exclamou o duende.
E lá foi em bicos de pés, pela escada das traseiras acima, até ao sótão onde morava o estudante. Havia luz lá dentro. O duende espreitou pelo buraco da fechadura e viu o estudante a ler o velho livro da loja.
Que grande claridade havia no quarto! Do livro saía um brilhante raio de luz, que se tornou num tronco de árvore, de uma nobre árvore que subiu e espalhou os seus ramos por cima do estudante. As folhas eram novas e verdes, e cada flor tinha o rosto de uma linda rapariga, algumas com olhos escuros e misteriosos e outras com olhos azuis cintilantes. Cada fruto era uma estrela luminosa e o ar estava impregnado de um belo som de canções.
O duende nunca tinha visto nem ouvido falar de tais maravilhas; e muito menos seria capaz de as imaginar. Portanto, ficou ali à porta, em bicos de pés, a espreitar, de olhos muito abertos, até que a luz se apagou. O estudante devia ter assoprado a vela e ido para a cama — mas o duende continuava sem ser capaz de arredar pé. Parecia-lhe ouvir a linda música, que ainda ecoava no ar, ajudando o estudante a adormecer.
— Isto custa a crer — murmurou o duende para consigo. — Nunca esperei nada do género. Acho que vou ficar no sótão com o estudante. — Depois pensou um bocado e suspirou: — Tenho de ser sensato; o estudante não tem papas de aveia.
E portanto, é claro, voltou para baixo, para a mercearia. Ainda bem que o fez, porque a banheira tinha quase esgotado o dom de falar pelos cotovelos, contando todas as notícias dos jornais que estavam guardados dentro dela. Tinha falado para um lado e estava prestes a virar-se para o outro e a continuar quando o duende devolveu o dom de falar pelos cotovelos à mulher do merceeiro adormecida. E, a partir dessa altura, todas as coisas da loja, desde a caixa registadora até à lenha, seguiram as opiniões da banheira; tinham-lhe tanto respeito que, depois daquilo, quando o merceeiro lia nos jornais críticas de peças ou de livros, pensavam que ele tinha aprendido tudo com a banheira.
Mas o duende já não aguentava ficar ali sentado a ouvir toda a sabedoria e bom senso pronunciados na loja; assim que via luz através das frinchas da porta do sótão, parecia ser atraído para lá por cordelinhos, e tinha de subir a escada e pôr-se a espreitar pelo buraco da fechadura. Sempre que o fazia, sentia-se invadido por uma sensação de indizível grandeza — a espécie de sensação que se tem quando se vê o mar encapelado com ondas tão fortes que o próprio Deus podia vir montado nelas! Que maravilha seria sentar-se debaixo da árvore com o estudante! Mas era impossível.
Entretanto, contentava-se com o buraco da fechadura. Olhava através dele todas as noites, ali parado no patamar deserto, mesmo quando o vento do Outono começou a soprar pela clarabóia, fazendo-o quase morrer de frio. Mas ele nem o sentia até a luz se apagar no quartinho do sótão e a música se calar a pouco e pouco, ficando apenas o uivar do vento. Brr! Então, sentia como estava gelado e descia sem fazer barulho para o seu canto secreto da loja, quente e confortável. Em breve viria a tigela de papas de aveia do Natal, com o seu grande pedaço de manteiga. Sim, o merceeiro era a escolha certa.
Mas uma noite, já bem tarde, o duende acordou com uma grande agitação à sua volta. Estavam pessoas a bater nos estores, o guarda-nocturno apitava: havia fogo, e toda a rua parecia estar em chamas. Que casa é que estava a arder? Aquela ou a do lado? Onde era o fogo? Que gritos! Que pânico! Que agitação! A mulher do merceeiro estava tão desorientada que tirou os brincos de ouro das orelhas e meteu-os num bolso, para salvar pelo menos alguma coisa... O merceeiro foi a correr buscar os seus valores, a criadita foi buscar o seu xaile de seda que tinha comprado com o ordenado. Toda a gente foi a correr buscar aquilo a que dava mais valor.
E o duende fez o mesmo. Num pulo ou dois subiu a escada e entrou no quarto do estudante, que estava calmamente à janela, vendo o incêndio na casa em frente. O duende pegou no livro maravilhoso, que estava em cima da mesa, meteu-o dentro do boné vermelho e agarrou-se a ele com os dois bracitos. A coisa mais preciosa da casa estava salva!
Depois, foi a correr para cima do telhado, mesmo para o alto da chaminé, e ficou ali sentado, iluminado pelas chamas da casa a arder do outro lado da rua, sempre firmemente agarrado ao boné vermelho com o tesouro lá dentro.
Agora sabia para onde o seu coração o puxava: estudante?, merceeiro? — a escolha era clara.
Mas, quando o fogo ficou extinto e o duende já tinha tido tempo para pensar com mais calma, bem...
— Divido o tempo entre eles — decidiu. — Não sou capaz de abandonar o merceeiro, por causa das papas de aveia.
Mesmo coisa de ser humano, francamente! Também nós gostamos de nos dar bem com o merceeiro por causa das papas de aveia.

Hans Christian Andersen

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O Livro mudo


Junto à estrada, no meio do bosque, havia uma quinta solitária. Entrava-se pelo portão, até ao terreiro banhado pelo Sol e com todas as janelas abertas. Havia vida e movimento lá dentro, mas no pátio, numa ramada de lilases florescentes, estava um caixão aberto. O morto fora colocado ali porque naquela manhã ia ser enterrado. Ninguém o olhava com lamentações, ninguém o chorava. O seu rosto estava coberto com um pano branco e sob a sua cabeça fora colocado um livro grande e espesso,
cujas folhas, soltas, eram de papel cinzento e entre cada uma delas estavam, guardadas e esquecidas, flores fanadas, todo um herbário colhido em lugares diferentes. Devia ir para a sepultura também, porque o tinha pedido o próprio falecido. A cada flor estava ligado um capítulo da sua vida.
– Quem é o morto? – perguntamos nós, e a resposta foi: o velho estudante de Uppsala! Tinha sido diligente. Tinha conhecido a linguagem dos sábios, tinha sabido cantar, sim, e também escrever canções, disse-se, mas algo se lhe atravessou no caminho. Lançou-se a si mesmo e aos seus pensamentos à aguardente, e quando a saúde disso se ressentiu, veio para aqui, para o
campo, onde lhe pagaram as despesas. Era devoto como uma criança, mas, quando o espírito negro o dominava, corria como um animal acossado pela floresta. Se conseguíamos levá-lo para
casa e pô-lo a ver o livro com as plantas secas, ficava sentado, todo o dia, a olhar para uma planta e para outra. Muitas vezes corriam-lhe lágrimas pelas faces abaixo. Sabe Deus o que pensava!
Mas ele pediu o livro para o acompanhar no caixão e ele ali estava. Dentro de pouco tempo a tampa seria pregada e receberia, finalmente, a sua doce paz na sepultura.
Levantaram a mortalha. No rosto do morto havia paz e um raio de Sol tombou sobre ele. Uma andorinha disparou, no seu voo veloz de flecha, para dentro da ramada e deu uma volta, chilreando,
sobre a cabeça do morto.
Como é maravilhoso – conhecemo-lo certamente todos –, quando pegamos em velhas cartas do nosso tempo de juventude e as lemos, emerge toda uma vida com todas as suas esperanças e todas as suas mágoas. Quantos dos seres com quem vivemos tão intimamente estão agora como mortos para nós e, contudo, vivem ainda, mas não pensamos por longo tempo neles, naqueles a quem outrora supusemos estar sempre ligados, participando reciprocamente de dores e alegrias.
A folha fanada do carvalho, no livro, recorda aqui amigos, amigos do tempo da escola, amigos para toda a vida. No bosque verde, ele prendeu esta folha no barrete de estudante, quando o pacto ficou firmado para toda a vida. – Onde vive agora?
Folha guardada, amizade olvidada! Aqui está uma estranha planta de estufa, demasiado fina para os bosques do Norte – é como se houvesse ainda alguma humidade nesta folha! Foi a donzela que lha deu, aquela estranha planta, colhida em jardim da nobreza. Aqui está o nenúfar, ele próprio o colheu e
regou com lágrimas salgadas, nenúfar de água doce. E aqui está uma ortiga. Que dizem as suas folhas? Que pensou ao colhê-la, ao guardá-la? Aqui está um lírio-do-vale da solidão do bosque, aqui está uma madressilva do pote de plantas da sala do albergue e aqui a folha de relva, cortante e nua!
Os lilases florescentes inclinam cachos frescos e perfumados sobre a cabeça do morto – a andorinha passa a voar outra vez:
- Quevivi! Quevivi! Agora vêm os homens com pregos e com martelo, colocam a tampa sobre o morto, onde repousa a cabeça sobre o livro mudo. Guardado  esquecido!

                                                                                                             Hans Christians Andersen

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

As velas de sebo


Aquilo chiava e fervia enquanto o fogo dançava debaixo do caldeirão; era o berço da vela de sebo e do interior do berço cálido surgiu a vela perfeita, elegante, brilhando branca e esguia. A julgar por seu aspecto, todos os que a contemplavam se convenciam de que ali estava a promessa de um futuro feliz e radioso --uma promessa que, como todos viam muito bem, ela não deixaria de cumprir.
A ovelha uma linda ovelhinha era a mãe da vela, enquanto o caldeirão onde se derretia o sebo era seu pai. Da mãe ela herdara o admirável corpo branco e uma certa noção da vida; mas do pai recebera o desejo de ter uma chama ardente, capaz de penetrar medula e ossos e de "brilhar" vida afora.
Contudo, acreditava demais no mundo; e o mundo só se interessa por si mesmo, não quer saber de velas de sebo... Porque, incapaz de entender qual era a finalidade da vela, o mundo tratou de usá-la em proveito próprio e manuseou-a de forma errada, sem cuidado; seus dedos sujos foram manchando cada vez mais a cor imaculada da inocência, que acabou desaparecendo por completo, coberta pela imundície do mundo inteiro, com o qual a vela mantivera um contato próximo demais, ela que nunca soubera a diferença entre o sujo e o limpo... mas que mesmo assim, por dentro, continuava inocente e pura.Sim, essa era sua feição, assim ela se formara: entregara-se à vida impregnada das melhores e mais luminosas esperanças. E nela encontrara um número incrivelmente vasto de outras estranhas criaturas às quais se misturara, desejosa de aprender a conhecer a vida e, quem sabe, dessa maneira encontrar o lugar que melhor lhe correspondia.
Os falsos amigos perceberam que eram incapazes de atingir o que havia por dentro da vela e, furiosos, descartaram-na como uma coisa inútil.
Mas a superfície externa, negra de sujeira, não deixou que os bons entrassem os bons ficaram com medo de se contaminar com aquele pretume, não quiseram ficar manchados e por isso guardaram distância.
E a pobre vela de sebo ficou sozinha e abandonada, sem saber o que fazer. Sentia-se desprezada pelos bons; agora entendia que não passara de um instrumento para que os maus fossem mais fundo em sua maldade; sentiu-se, com isso, tremendamente infeliz, vendo que não dedicara a vida a nada de útil, talvez até tivesse conspurcado o que havia de melhor ao seu redor era incapaz de compreender para que ou para onde afinal se dirigia, ou por que razão vivia neste mundo e estragado a si mesma e aos outros.
Cada vez mais e com maior profundidade ela refletia, mas quanto mais pensava, maior era seu abatimento, pois era incapaz de encontrar alguma coisa boa, algum sentido autêntico para sua existência ou de divisar a meta que lhe fora destinada ao nascer. Era como se aquela camada negra também tivesse coberto seus olhos.
Foi então que ela encontrou uma chamazinha, um pavio; ele conhecia a vela de sebo melhor do que ela própria; aquele pavio percebia as coisas com enorme clareza inclusive através da camada externa e, lá dentro, encontrou uma grande bondade; sendo assim, aproximou-se dela; luminosas esperanças despertaram na vela; que se acendeu e o coração, dentro dela, derreteu-se.
A chama explodiu, como uma tocha de júbilo num matrimônio abençoado, e tudo ao redor se iluminou e ficou claro; desvendando os caminhos para os que a levavam, seus amigos de verdade que agora também buscavam a verdade guiados pelo clarão da vela.
Contudo, o vigor do corpo também era suficiente para nutrir e carregar a chama ardente. Gotas e mais gotas, como sementes de uma nova vida, escorreram ao longo da vela e recobriram com sua substância a sujeira passada.
Elas não eram apenas a matéria daquele matrimônio mas também seu enlace espiritual.
Agora a vela de sebo encontrara o lugar que lhe cabia na vida mostrando que era uma vela de verdade, que brilhou durante muito tempo para sua própria alegria e a das outras criaturas...


                                                                     Hans Christians Andersen


















segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O Trigo mourisco

Muitas vezes, após uma trovoada, ao passar-se por um campo de trigo mourisco, pode ver-se como ficou todo chamuscado. É como se o fogo tivesse passado por ele e o camponês dá-nos a explicação seguinte: "Foi um raio!" Mas porquê? Pois vou contar-lhes o que disse a um pardal um velho salgueiro que se encontrava perto dum campo de trigo mourisco e ainda lá está. É um salgueiro grande e venerável, mas enrugado e velho, um pouco rachado ao meio, com uma fenda onde crescem ervas e sarças. A árvore está um pouco tombada para a frente, e os ramos pendem para o solo, como se fossem uma longa cabeleira verde.
Em toda a volta havia campos de cereal, de centeio, de cevada e de aveia, a bela aveia que, quando está sazonada, parece um enorme bando de pequeninos canários amarelos pousados num ramo. Os cereais são assim uma bênção de Deus e quanto mais pesados estão, mais baixos se inclinam em humildade.
Mas havia também um campo de trigo mourisco, bem perto do velho salgueiro, que não queria nunca inclinar-se como os outros cereais; sempre se mantinha direito, orgulhoso e altivo.
— Sou tão rico como a espiga de trigo — disse ele. — Sou, além disso, mais bonito. As 15 minhas flores são tão belas como as da macieira, e é um regalo olhar para mim e para a minha floração. Conheces algo de mais belo, velho salgueiro? O salgueiro abanou a cabeça, como quem diz "pois claro que conheço", mas o trigo mourisco inchou de orgulho e exclamou: — Árvore estúpida, tão velha estás que te crescem ervas na barriga!
Então rebentou uma terrível trovoada. Todas as flores dobraram as folhas ou inclinaram as cabeças, enquanto passava a trovoada sobre elas. Só o trigo mourisco continuava com a cabeça erguida, no seu orgulho.
— Abaixa a cabeça, como nós! — disseram as flores.
— Não tenho nenhuma necessidade disso! — respondeu o trigo mourisco.
— Abaixa a cabeça como nós! — gritou o trigo. — Vem aí o Anjo da Tempestade! Tem asas e com elas alcança tanto o céu lá em cima como a terra cá em baixo. Pode ceifar-te sem teres sequer tempo de pedir-lhe mercê.
— Está bem, mas eu não vergo! — retorquiu o trigo mourisco.
— Anda, fecha as flores e dobra as folhas! — disse o velho salgueiro. — Não olhes para cima, para os raios, quando as nuvens rebentam. Nem os próprios homens o podem fazer, pois que por eles é possível olhar para dentro do Céu, mas isso é bastante para os cegar. E o que nos aconteceria a nós, plantas da terra, se o ousássemos fazer, nós que somos muito menos?
— Muito menos? — disse o trigo mourisco. — Pois vou mesmo olhar para dentro do Céu! E foi isso que fez, com presunção e orgulho. Caiu então uma faísca tão grande que parecia que toda a terra ardia em chamas.
Quando o mau tempo passou, sentiram-se as flores e os cereais numa atmosfera calma e pura, refrescada pela chuva; mas o trigo mourisco ficara completamente queimado, reduzido a carvão pelo raio. Era agora uma erva inútil e morta no campo.
O velho salgueiro agitava os ramos ao vento e deixava tombar grandes gotas de água das suas folhas verdes, como se chorasse. Os pardais perguntaram-lhe:
— Porque estás a chorar? Não é tudo maravilhoso? Repara como brilha o sol e deslizam as nuvens. Não sentes o perfume das flores e dos arbustos? Porque choras, pois, velho salgueiro?
Então, o salgueiro falou-lhes do orgulho e da presunção do trigo mourisco e do seu castigo. É sempre assim. Eu, que escrevi este conto, ouvi-o duns pardais. Contaram-mo uma tarde em que lhes pedi uma história.
Hans Christians Andersen

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O pobre e o rico

Em tempos muito remotos, quando o bom Deus ainda andava pela terra entre os homens, certa tarde, após ter caminhado muito, sentiu-se can...